terça-feira, 6 de março de 2012

Vaidade

Por Davidson Rocha de Oliveira

Pense no que seria o seu último dia de vida.
Tantas coisas que você faria, ou deixaria de fazer, para que tudo o que realmente é importante tomasse o devido lugar e ocupasse os últimos instantes que não param e que vão se findar tão rápido.
O excesso de trabalho, a busca incessante por posses, a internet (twitter, facebook, Orkut, youtube e etc...), as discórdias entre pais, irmãos, parentes, amigos, conhecidos, vizinhos, o preconceito, as diferenças, as críticas mal elaboradas, as revoltas egoístas de nosso mundinho subjetivo, os programas perversos, a covardia, as lutas, as desavenças, a pobreza, a falta de comunhão, o fast-food, a gritaria, o stress, o trânsito, o medo.

 Tudo isso, e várias outras circunstâncias que nos hipnotizam, mesmo sendo completamente estúpidas e descartáveis, e que ocupam nosso tempo de maneira desprezível; todas elas perderiam o sentido.
Uma única e mais perversa pergunta atacaria a mente: Por que eu não fiz? Ou melhor... Por que eu não sou?
A maior lembrança e dedução neste momento: O entendimento de que tudo o que dizemos não representa em nada o que SOMOS. Que tantas prioridades símplices, deixaram de ser tratadas pura e exatamente justificadas pela nossa: VAIDADE.
Ao pensar que nosso tempo pode findar em breves instantes, lembramos de quão leve é o ar adentrando em nossos pulmões. Acolhedor o colo dos pais e familiares mesmo com diferença de pensamento entre gerações. É tão satisfatório aquele prato repetido incontáveis vezes pela mesma cozinheira que vivemos a reclamar. As flores do jardim nunca foram tão coloridas. Seu irmão é o melhor amigo e mais compreensivo conselheiro. Seus líderes da noite para o dia se tornaram os maiores guerreiros de todas as eras; verdadeiros gladiadores modernos e merecerem ser honrados. Imaginem só... o céu é infinitamente azul, as nuvens se tonaram como algodão! Os cantos dos pássaros, agora, se tornaram melhor do que a sinfonia de Beethoven. As copas das árvores são frondosas e belas, mais do que qualquer criação de arquitetos e engenheiros modernistas.
 Bem, nunca imaginávamos que somente nos últimos instantes de nossa condição humana poderíamos ter nossos olhos abertos à realidade. Agostinho de Hipona descreve que esta “realidade” nos é oculta como que por um “espelho” devido a nossa natureza caída. Interessante, porque exatamente quando temos a sentença “final” ao nosso lado, é que podemos compreender e enxergar além deste “espelho”. Entendemos, então, que a prioridade em nosso ser não está ligada a corrupção de nossa natureza caída, mas sim a bela e criativa obra dependente de nosso ser e a provisão Soberana sob toda a criação.

Decidimos... Correr o mais rápido e finalmente abraçar aos pais e demonstrar o quanto amamos, respiramos tão fundo que a brisa se torna como a melhor seda a revestir nosso corpo, as ondas do mar agora dançam uma coreografia antes impossível de vislumbrar, o almoço como um culto de gratidão a provisão divina (Miguel, IGOR), o sorriso das pessoas não se compara ao de Monaliza (Vincci, Leonardo). Então percebemos como Jó que o “meu Redentor vive”, o Eterno nunca se foi tão vivo... tão real como neste exato momento... as promessas e o Reino praticamente se materializaram em uma maravilhosa manifestação de paz, alegria, gozo e justiça.

Aqui, exatamente neste ponto, onde entendemos o conceito descrito pelo autor de Eclesiastes sendo: Vaidade. “Tive prazeres... construí grandes coisas... trabalhei... busquei sabedoria e conhecimento... plantei jardins... questionei o ímpio... pensei... agi... chorei... sorri... e tudo... tudo debaixo do céu se resume a vaidade”.

Tudo o que foi realizado por nossas mãos se resume a um conceito: vaidade. Nós... nós... cada um de nós... Somos egoístas, buscamos reconhecimento subjetivo, vangloriamos, rebeldes, infiéis, ingratos... vaidosos. Contudo mesmo assim, agora, com a essa imaginação somos conduzidos a uma bela reflexão, onde abandonamos nossa AUTONOMIA, para ter nossos olhos abertos à liberdade graciosa e criativa de nosso Criador.

Temos a oportunidade de fazer como Cristo: “_Vem a nós o Teu Reino...”; temos a oportunidade de não somente imaginar, mas suscitar essa realidade. Não há nada que justifique que pessoas tão importantes como VOCÊ desperdice sua vida sem nenhum sentido. Há propósitos a ser cumpridos, sonhos a ser realizados, e porque deixar todo o tempo sendo mortificado por vaidade. Álcool, drogas, prostituição... pecado!

Tudo isso restringe nossos olhos a um “ESPELHO” onde enxergamos somente O ÍDOLO.  

Contudo, a essa altura, recebemos a capacidade (dependência) de vivê-lo tão intensamente, tão profundamente, tão afogado na deslumbrante criatividade do Eterno que se torna muito triste, no ápice de seu glorioso dia, de repente suas forças se esvaem e então se lembra...

É seu e o meu “último dia”, a vaidade nos consumiu...

Agora... Um cadáver

Eclesiastes 1:2-18
"Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol? Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece. Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos. Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr. Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir. O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós. Já não há lembrança das coisas que precederam, e das coisas que hão de ser também delas não haverá lembrança, entre os que hão de vir depois. Eu, o pregador, fui rei sobre Israel em Jerusalém. E apliquei o meu coração a esquadrinhar, e a informar-me com sabedoria de tudo quanto sucede debaixo do céu; esta enfadonha ocupação deu Deus aos filhos dos homens, para nela os exercitar. Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito. Aquilo que é torto não se pode endireitar; aquilo que falta não se pode calcular. Falei eu com o meu coração, dizendo: Eis que eu me engrandeci, e sobrepujei em sabedoria a todos os que houve antes de mim em Jerusalém; e o meu coração contemplou abundantemente a sabedoria e o conhecimento. E apliquei o meu coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras, e vim a saber que também isto era aflição de espírito. Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor".

Um comentário:

  1. Amigo Davidson,

    Fico feliz que sua sensibilidade vem crescendo. Quanto mais olhamos para o mundo pelas janelas da graça, mais gratos nos tornamos e mais próximos de nossa condição original, nos convertemos.

    Belíssimo texto amigo, belíssimo. Que Deus o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo nos farte de alegria no Espírito Santo, ante tantas evidências de seu amor, mesmo convivendo com o paradoxo e as contradições de um mundo fraturado.

    Jubilando contigo,
    Igor

    ResponderExcluir